F

02 março 2017

Resenha | A intrusa

Título: A intrusa
Autora: Julia Lopes de Almeida
Editora: Pedrazul
Gênero: Romance/Literatura nacional
Páginas: 232
Publicação original: 1908
Publicação pela Pedrazul: 2016
Skoob

(Cortesia da editora)

Sinopse: Um clássico nacional à moda europeia! A história de uma jovem governanta chamada Alice Galba. O século XIX caminhava para o fim, o Rio de Janeiro vivia o auge da cultura cosmopolita, a Belle Époque, marcada por profundas transformações culturais que se traduziam em novos modos de pensar e de viver o cotidiano. Em meio à aristocracia carioca, um rico advogado – viúvo, mas ainda jovem e atraente – era perseguido por mães casamenteiras que desejavam ter um genro abastado e influente. Porém, ele se esquivava resoluto, pois prometera à esposa, no leito de morte, manter sua viuvez. O casamento com a filha de um barão resultou em um fruto: uma garotinha mimada e sem modos, criada pelos avós maternos, cuja avó baronesa fazia-lhe todas as vontades. Infeliz pela má educação da menina, ludibriado por um escravo que usava as suas roupas, fumava os seus charutos, bebia fartamente da adega e ainda inflacionava as contas da casa, ele decide contratar uma governanta. Desconsiderando todas as críticas feitas pelos amigos e pela sogra ciumenta, ele pede ajuda ao padre Assunção, seu amigo de infância, e publica um anúncio num jornal à procura de uma governanta. Atendendo ao anúncio, aparece Alice Galba, que aceita a estranha condição: que o patrão jamais a visse. Quando ele entrava pelo portão, ela se escondia. Dela ele apenas sentia o perfume e sua boa influência no lar e na educação da filha. Suas roupas agora estavam impecáveis, a mesa sempre bem posta e arranjada com esmero, a comida saborosa e os móveis reformados, de forma que começou a desejar ardentemente voltar para sua (agora agradável) moradia. Vez ou outra encontrava um livro aberto, esquecido sobre uma poltrona e, com o passar dos meses, passou a notar a doce presença da alma da moça pelos cômodos do casarão. Alma cujo rosto ele já ansiava ver!



A intrusa, publicado pela Pedrazul Editora, é um clássico da literatura nacional. Aqui vamos conhecer Argemiro, advogado, viúvo há anos, mas ainda jovem e cobiçado para casamentos. Ele já não mais suporta a desordem que anda sua casa e os abusos que seu ex-escravo Feliciano têm feito por lá. Além disso, sua filha Glória de apenas 11 anos cresceu mimada e sem modos na casa de seus sogros, onde a avó materna faz todas as suas vontades. A medida que ele tomou, mesmo sendo tão criticado, foi contratar uma governanta para colocar ordem em sua moradia e educar sua filha. A única condição dada a ela era que nunca os dois se vissem - cada vez que ele chegava em casa, ela se escondia. E assim, Alice Galba foi contratada e em pouco tempo mudou totalmente o ambiente. Além de mudar os modos de Glória, tratou de cortar os gastos excessivos feitos por Feliciano, tornou a deixar o jardim, a mesa posta, as roupas, os móveis, todos com uma organização e limpeza impecáveis. Com o passar dos meses, Argemiro se admirava mais pela alma de Alice, a quem não via, mas podia sentir, e começava a desejar conhecer-lhe o rosto. Porém, teria muito ainda que lidar com as artimanhas da sogra ciumenta, já que prometeu a sua falecida esposa no leitor de morte, que jamais voltaria a se casar.

A obra possui, claro, a formalidade da escrita da época, mas pode facilmente ser compreendida devido as pequenas mudanças feitas pela Editora para o melhor conforto do leitor. O resultado foi uma leitura muito envolvente e prazerosa. Viajamos pelas ruas do Rio de Janeiro, onde a realidade da sociedade da época é citada com sutileza. Negros que foram recém libertados, como Feliciano, a política - tão relevante nas conversas dos homens -, a nobreza, as mães casamenteiras, o sacerdócio como o de Padre Assunção e, claro, o papel e posição da mulher sempre julgada por qualquer deslize. Amei todo esse retrato como pano de fundo para essa história tão cotidiana e levemente romântica.


Quem acha que não é possível se divertir com um romance clássico está enganado. O que não faltou nessa obra foi diversão para mim. Foi muito cômico acompanhar os pensamentos da sogra de Argemiro, esse coitado, preso a uma promessa feita para a esposa no leito de sua morte. A sogra tão ciumenta pelo genro e pela neta que só sabiam falar bem de Alice, foi o ponto alto da história para mim. Além disso, Feliciano, o ex-escravo de Argemiro, um mexeriqueiro e espertalhão, vivia causando intrigas e cutucando ainda mais a situação. E no meio disso tudo, o Padre Assunção, tentando mediar as ocorrências, mas guardando só para si o respeito que já tinha pelas mudanças feitas por Alice. Com tantas situações cômicas é impossível não apreciar a história e se deliciar com os personagens. E, enquanto acompanhamos todos os personagens, a participação de nossa protagonista Alice foi feita um tanto rebuçada na história, revelando-se apenas ao que os outros falavam sobre os feitos dela. Isso rendeu um ar de mistério ao livro, pois a autora despertou sutis desconfianças se Alice era assim mesmo tão perfeita ou escondia algo comprometedor. Genial a forma com que foi desenvolvido tudo isso. Ao mesmo tempo, o que mais gostei foi acompanhar a curiosidade de Argemiro por conhecer sua governanta e o quanto ele já sentia por ela sem nem perceber. Isso me deixou com muita expectativa para o encontro deles.

"E o que me delicia é sentir a alma dessa criatura, que aqui tenho debaixo do meu teto, sem que nunca os meus olhos a vejam nem de relance... Ela se esconde, ao mesmo tempo em que se espalha pela casa toda. É  a mulher-violeta, positivamente, não há outra comparação!". (p. 74)

Não espere de A intrusa romantismo em demasia. O romance aqui é bem sútil, mas tão bonito! Argemiro nunca vê sua governanta, mas pode senti-la, como se conhecesse sua alma. Isso é lindo! Atualmente, as pessoas estão tão acostumadas em ler casais que se apaixonam depois de uma incontrolável atração física, que estão tão presentes de corpo e muitas vezes ausentes de espírito. Por que não um amor que nasce apenas pelo sentir (presença), sem ver ou tocar (físico)? Tenho certeza que o final vai agradar os apaixonados por romances com uma aguçada percepção dos verdadeiros sentimentos. Um clássico nacional que pode deixar muitos livros estrangeiros do gênero no chinelo. Simplesmente amei!

Compare e compre: Buscapé






18 comentários:

  1. Oii.

    Já li algumas resenhas sobre esse livro e acho que daria uma chance para leitura, hehe. Espero encontrá-lo em pdf para iniciar a leitura logo.

    beijos

    Participe do sorteio e concorra a três livros incríveis no blog.

    www.mecontanoblog.com

    ResponderExcluir
  2. olá
    achei a capa simples e isso deixou ela linda ainda não conhecia talvez eu leia nunca se sabe, adorei a resenha.

    bjss

    ResponderExcluir
  3. Olá! Gostei da trama ter diferenciais ao abordar a trajetória da construção do relacionamento entre os personagens. Obrigada por me apresentar autora e obra. Irei pesquisar mais sobre ambas. Abraços!

    ResponderExcluir
  4. Olá!

    Não conhecia o livro, mas curti a premissa, quem sabe eu dê uma chance a ele mais pra frente. Parabéns a editora por fazer uma capa tão linda!

    ResponderExcluir
  5. Olá, tudo bem?
    Nossa, minha mãe leu esse livro e amou, e olha que diferente de mim, ela não está muito habituada a leitura.
    Já a premissa, não me cativou, então vou passar a dica, e quem sabe em outro momento eu possa dar uma chance né.
    Um beijo.

    ResponderExcluir
  6. Olá! Eu amei a capa. E fiquei bastante curiosa para conhecer a história, achei legal o fato de não ser um romance meloso, mas ser tudo na medida certa. espero ler em breve. beijos!

    ResponderExcluir
  7. Letícia,
    Muito boa a sua resenha e dá uma ideia geral da atmosfera da época em que se passa o Romance. Foto linda! Espero gostar do livro, pois já o anotei para colocar na fila das leituras! Abração!

    ResponderExcluir
  8. Li esse livro no lançamento no ano passado e adorei tanto que ele foi uma das minhas top leituras do ano. Adorei acompanhar essa loucura da sogra dele e o romance, tão sutil e bonitinho que vai surgindo no decorrer das páginas. Simplesmente, amo essa obra ♥

    Raíssa Nantes

    ResponderExcluir
  9. Olá linda,

    adoro clássicos e pela sua resenha e o detalhamento dos pormenores,principalmente que contém muitas tiradas engraçadas já me deixa curiosa e ansiosa para conhecer esse romance que tem uma capa linda.

    Beijos!

    ResponderExcluir
  10. Olá ♥
    Não conhecia o livro, mas tenho que confessar que de certo modo não me senti atraída pela premissa, e olha que eu gosto muito de romances de época. A capa foi de fato a única coisa que me agradou. Sua resenha está muito boa. Beijos!

    ResponderExcluir
  11. Olá, Letícia.
    Achei a premissa do livro bem bacana, tal qual um típico romance de época. Só não entendi porque você chamou o livro de clássico da literatura nacional. Entendi que o livro foi escrito em 2016, não? Uma obra desconhecida até então... E por que então você diz que é um clássico?
    Beijos
    Camis - blog Leitora Compulsiva

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Camila
      Esse livro foi publicado inicialmente em capítulos em um jornal da época, em 1905, e em livro três anos depois. Então, como a própria sinopse diz, ele é um clássico. E apesar de algumas alterações feitas pela editora para uma melhor compreensão, a escrita mantém as características da época em que foi escrita. Vale muito a pena o livro.

      PS: Vou colocar a data da publicação original, caso alguém mais tenha dúvida ;) Obrigada pela visita!

      Excluir
  12. Letícia que resenha, que livro, que história!! Essa premissa me fez apaixonar pelo livro! Confesso que nunca tinha ouvido falar dele, mas agora já quero lê-lo. ótima resenha viu, muito bem escrita, instigante, amei!! Bjs

    Marcinha, blog Eu Pratico Livroterapia

    ResponderExcluir
  13. Nunca tinha escutado falar sobre esse livro. Achei interessante a premissa mas no momento não dá para eu ler. Muita leitura atrasada. Mas eu irei colocar na lista.

    Beijos.

    ResponderExcluir
  14. Aiiii que livro mais lindo gente! Fiquei muito apaixonada por essa edição, o enredo parece ser encantador e envolvente já de primeira, com toda certeza pretendo realizar a leitura assim que possível, além do mais as suas fotos ficaram lindas.
    Beijinhos da Morgs!

    ResponderExcluir
  15. Ola Le há tempos não leio um clássico menina, gostei da sinopse e a sutileza com relação ao romance, estou curiosa com o encontro desses dois, a cada dia me apaixono mais por romances de época. Dica mais que anotada. beijos

    Joyce
    Livros Encantos

    ResponderExcluir
  16. Oie, nossa eu vi esse livro e me interessei mas foi ficando para trás nesse mundo de livros que queremos. Agora que li sua resenha com certeza hei de comprá-lo em conjunto com o Primeiras Impressões. Obrigada pela dica!
    Bjs

    ResponderExcluir
  17. Oie!!
    Nossa que capa mais linda. Curti demais a sua resenha, mas confesso que tenho a vergonha de dizer que eu tenho problemas com romances clássicos. Sei que é ridiculo isso da minha parte, mas não consigo diferente de todos do meu blog. Vou passar pra eles a dica desse livro, tenho certeza que vão gostar

    beijos
    Livros & Tal

    ResponderExcluir

Seja bem-vindo ao meu blog.
Sua opinião é muito importante, mas se lembre que respeito é bom e eu gosto!
Seguiu? Deixa o link que eu sigo de volta. E também retribuo os comentários.

Obrigada por vir até meu cantinho!